Evanildo Bechara: Questões de acentuação tônica

Um leitor atento das Bases do novo Acordo Ortográfico aponta nova orientação no emprego do acento gráfico das vogais ‘i’ e ‘u’ tônicas dos paroxítonos, quando precedidas de ditongo,em relação às normas do sistema oficial anterior, tanto no Brasil (1943), quanto em Portugal (antes de 1945).   
 
Eis o texto da sua pergunta: “O parágrafo 4º da Base X do Acordo Ortográfico de 1990 diz o seguinte: ‘4º Prescinde-se do acento agudo nas vogais tônicas grafadas ‘i’ e ‘u’ das palavras paroxítonas, quando elas estão precedidas de ditongo: ‘baiuca’, ‘boiuno’,‘cauila’ (var. ‘cauira’), ‘cheiinho’ (de ‘cheio’), ‘saiinha’ (de‘saia’). Logo, por que no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) a Academia Brasileira de Letras (ABL) interpretou que a regra acima só se aplica a ditongos decrescentes, e acentuou, por exemplo, ‘guaíba’?  

Na implantação das normas do Acordo de 1990 durante a elaboração da 5ª edição do Volp, em 2009, este foi um dos pontos sobre os quais se debruçou a equipe do Setor de Lexicologia e Lexicografia da ABL, uma vez que o texto oficial só usa “ditongo”, mas, por outro lado, a exemplificação contém apenas palavras paroxítonas com ditongo decrescentes. Chegou a equipe à conclusão de que os signatários do texto oficial, se era realmente para valer o novo princípio, formulado pelos portugueses em 1945, esqueceram-se de acrescentar à palavra “ditongo” o adjetivo“decrescente”. Portanto, assim procedemos na 5ª edição do Volp, e, quanto a ‘guaíba’, por aí haver ditongo  crescente, acentuamos graficamente o ‘i’ da sílaba tônica, bem como todas as que se encontravam na mesma situação.  
   
Um dos participantes portugueses do Acordo de 1990, o professor João Malaca Casteleiro, ao orientar tecnicamente para a Porto Editora o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, saído depois do Volp da Academia Brasileira de Letras, interpretou do mesmo modo: ‘baiuca’ sem acento gráfico, e ‘guaíba’ e o topônimo ‘Guaíba’ acentuados. 
 
 
Esta foi a razão pela qual ao elaborarmos dois livros,‘O que muda como novo Acordo Ortográfico’ e ‘A nova ortografia’, acrescentamos, no lugar próprio, “sem acento quando precedidas de ditongo decrescente”. 

Também juntamos que se ‘feiinha’ pela regra não é acentuado graficamente,‘feiíssimo’ já o será, porque é um vocábulo proparoxítono, e todos iguais levarão acento gráfico. O texto enxuto da redação oficial não justifica a razão teórica da distinção. 

Todavia, o procedimento se ampara num princípio de fonética articulatória que separa nitidamente o resultado quando se tem ditongo decrescente ou ditongo crescente, e, no primeiro caso, o ditongo seguido de ‘i’ ou ‘u’ tônicos não possibilita a enunciação como tritongo, e como só há um resultado fonético-fonológico não há necessidade de acentuação gráfica distintiva. É o caso, por exemplo, de ‘boiuna’, em que não há possibilidade de duas leituras; se o ditongo é crescente, como no caso de ‘guaiba’, onde pode haver hiato(‘ua-i’) ou tritongo (‘uai’), surge a necessidade de acentuação gráfica distintiva para marcar a pronúncia correta com hiato. Daí, a distinção gráfica entre ‘boiuna’(sem acento gráfico) e ‘guaíba’(com ele).

O Dia (RJ), 26/6/2011

publicado por rainha das palavras às 12:04 | comentar | favorito